Materiais de construção ‘somem’ das lojas e preço volta a subir em Araçatuba


Não foi só o preço da carne que está nas alturas. Alguns materiais de construção tiveram aumentos expressivos desde o começo do ano – e chegam até a faltar nas lojas, ainda que passageiro. Esse cenário impacta tanto na vida do brasileiro, que durante a pandemia resolveu fazer pequenas reformas na casa, quanto a de grandes empresas de construção civil, que também atuam nos segmentos de obras públicas e moradias populares.


Segundo o Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi), divulgado no início do mês pelo IBGE, em janeiro subiu 1,99% frente a dezembro e alcançou a maior taxa da série desde a desoneração da folha, em julho de 2013. O resultado é 0,05% maior do que a taxa de dezembro de 2020, que registrou 1,94%. Já no acumulado dos últimos 12 meses, a taxa é de 12,01%, acima dos 10,16% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores.


Em janeiro do ano passado o índice beirava os 0,30%. O custo nacional da construção por metro quadrado, que fechou 2020 em R$1.276,40, passou em janeiro para R$ 1.301,84, sendo R$ 731,37 equivalente aos materiais e R$ 570,47 relacionado à mão de obra. Por falar em mão de obra, essa parcela apresentou alta de 0,78%, subindo 0,60 ponto percentual em relação a dezembro de 2020, que na época fechou em 0,18%.


Em Araçatuba, a mão de obra no setor da construção não teve problema, chegou a acumular ótima performance nos protocolos da saúde em função da pandemia, com baixa incidência de contaminação sem paralisação durante todo ano de 2020. O custo levantado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon OESP) da mão de obra da região foi de R$ 865,29. As razões para o aumento dos preços são bem variadas. Alguns itens, como aqueles que possuem cobre, sofrem o impacto do câmbio. O produto em questão é uma commodity, é importado e o real não anda lá muito valorizado se comparado ao dólar. Já a dupla cimento e aço, tiveram a produção interrompida durante o início da pandemia e as atividades retomadas não conseguiram alcançar o patamar produtivo anterior à crise sanitária.


O presidente do Sinduscon OESP, de Araçatuba, Aurélio Luiz de Oliveira Júnior, argumenta que os aumentos dos preços dos materiais de construção são significativos e passaram a figurar como abusivos. “Na prática significa que houve um expressivo aumento dos preços durante a pandemia em função da escassez de materiais de construção. E isso, é claro, influência em todos os aspectos, se não houver um aperto nos preços dos materiais a tendência é o aumento de custo mais revigorado”, argumenta.


Ainda de acordo com o Sinduscon OESP, para prédios de até 8 pavimentos no padrão normal, o custo é de quase R$ 2 mil e no padrão alto é de R$ 1.872 – não incluindo nestes custos paisagismo, fundações e elevadores. Os números só refletem a mudança de comportamento do mercado, a demanda por esses produtos cresceu.


A construção civil foi considerada atividade essencial pelo governo federal em maio do ano passado, e diversos estados haviam liberado antes mesmo da normativa federal, como São Paulo e Paraná, as atividades no mês de abril. “Os custos da construção estão entrelaçados ao aumento abusivo dos materiais de construção, as indústrias usaram a pandemia para recomporem seus preços em função da falta de matéria prima, como ferro, aço, alumínio, PVC, entre outros. Esses materiais estão indo para fora, porque no exterior o dólar seduz mais do que o real. No país a construção conquistou uma alta importância, que possui uma incidência de 40% nos custos”, destaca Oliveira.


MOVIMENTO FORMIGUINHA


Como o setor não parou, muitos dos brasileiros que não foram impactados por reduções salariais, mas passaram a gastar menos durante a pandemia, investiram em melhorias em casa, principalmente falando de quem passou a trabalhar em home office. Foi o caso de Renato Oliveira, 45, morador de Birigui, desde o ano passado, trocou o escritório de administração pelo escritório de casa, mas o local precisava de um tapa para poder acomodar o material de trabalho. “Eu investi em cerca de R$ 3 mil para reformar não apenas o escritório, mas outras partes da casa. Uma coisa puxou a outra, enquanto eu instalava prateleiras, minha esposa me lembrava de concertar outros itens que eu nem lembrava ou que por conta da correria deixava de lado, com mais tempo em casa, coloquei a mão na massa, e gostei”, conta Renato. Até mesmo o pagamento do auxílio emergencial, benefício voltado para trabalhadores informais e população vulnerável, com as parcelas de R$600 e posteriormente de R$ 300, estimulou o consumo e aqueceu o mercado.


FALTA DE MATERIAIS PREOCUPA


Segundo analistas de mercado, há um momento natural de retomada de produção e recomposição de estoques dos materiais de construção, mas por enquanto há um movimento de “pé no freio” de setores da indústria, que acabam vendo o preço dos seus produtos subir constantemente. Ventila-se que as indústrias, especialmente de cimento e aço, diminuíram a produção em março, como reflexo natural das ações de atenuar os efeitos do coronavírus. Mas agora, há um duplo problema: retomar a produção e refazer o estoque. Procurados pela reportagem da Folha da Região, representantes e lojas do setor de construção relataram como a alta dos preços e escassez de alguns materiais de construção afetou quem constrói.


Da zona norte de Araçatuba, vieram relatos de algumas reformas paradas por falta de tijolos nas lojas, no Planalto, um serralheiro contou que só aceita pegar novos trabalhos se já tiver o produto para o projeto separado. Já os motivos apontados por um empresário, que preferiu não se identificar foram a demora para chegada de novas remessas, em média ele espera mais de 50 dias e com a espera, a incerteza em relação ao preço, o que prejudica a proposta de orçamento.


O empresário Edes Joaquim Rodrigues, proprietário da loja Baratão da Construção, no Hilda Mandarino, uma das maiores lojas de materiais de construção da cidade desde 1994, diz que nos últimos três meses sentiu fortemente o aumento de diversos insumos, bem como a demora e até a restrição para a entrega de alguns produtos. “Foi um aumento repentino e muitas empresas estão sem estoque e não conseguem renovar.


Em nossa região, o aço é o que mais está em falta, dependendo do produto não é possível nem mais comprar, ficamos à espera da oferta, em média, estamos aguardando até 180 dias para que o produto chegue. O que podemos fazer é entrar em contato com os contratantes para alertar sobre a situação e solicitar um reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos”, explica Rodrigues. Um procedimento necessário porque existe uma preocupação de que esse evento provoque uma paralisação e atraso nas obras.


Fonte: https://www.folhadaregiao.com.br/2021/02/17/materiais-de-construcao-somem-das-lojas-e-preco-volta-a-subir-em-aracatuba/